18.04.2020 Interessa-me particularmente a liberdade I


18.04.2020 Interessa-me particularmente a liberdade. A história das vontades das maiorias / somas das minorias é uma perpétua discussão, das tantas em que o seu singular propósito não é mais do que centrifugação argumentativa e alguma resignação ao reconhecimento do instável ponto-de-equilíbrio enquanto método de procura menos falível.
Neste momento de peste com as suas extremas incertezas é bom sossegar na aceitação que nem as maiorias, nem as minorias possuem formulas viáveis para nos resolverem a inquietação. Não fossemos nós também, ora parte das maiorias, ora das minorias – ainda que constantemente o recusemos e nos apressemos a sacudir o problema para eles, à primeira-contrariedade
Tem-me interessado particularmente, com grande surpresa, o fenómeno das petições públicas. À data, 26 mil compatriotas, uma minoria de dedo fácil entende ser importante cancelar as cerimónias oficias do 25 de Abril na Assembleia da República.  Lendo o manifesto dos proponentes (se para isto se pode usar conceitos como leitura e manifesto), verifica-se que estes consideram pertinente usar o provérbio "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" - sim, usaram e nem faz sentido - e evocaram o desrespeito do povo face a esta tremenda ameaça legislativa.
Aquele momento de irritação passiva resolvida instantaneamente num clique assinado é um tremendo caso de estudo. É certamente mais lento que um like, mas mais rápido e menos nocivo que um comentário colerizado – é também mais fácil de capitalizar, para ambos os lados - mas sempre, um nós contra eles. Outra petição, esta com uns ilustres 5 subscritores, considera comemorar-se a nossa charneira para a democracia neste momento, uma falta-de-respeito pelas vítimas da peste e por toda a gente que diariamente luta e põe o país a mexer!
Quando se discutia o (primeiro) estado de emergência, lembro-me que me apareceu Cícero “um acto justo só o é se for voluntário”, seguido de Montaigne (perseguido por ele ando eu) “ Se a acção não reflectir de algum modo o esplendor da liberdade, não tem nada de meritório ou de honroso. “A peste tem-nos revelado um especial acentuar da dicotomia nós / eles e uma particular renuncia à acção não comandada.  O indivíduo tem-se mostrado um afinado pedinte de autoridade. A maioria do medo. A nós, que não somos especialistas, encaminhem-nos, curem-nos, salvem-nos! (do medo).
Lembro-me no início da peste de um interessante artigo do Byung-Chul Han na Punkto (para o El País) que serviu o propósito de nos apresentar sem pudor os pratos da balança - usei-o algumas vezes como introdução à conversa. Depois aproveitei a minoritária petição do 5mil simpatizantes do Rendimento Básico Incondicional para provocar algumas reacções.
Agora que já há mascaras para todos começamos a duvidar do seu efeito paliativo.
Lembro-me na altura de ter lido no Expresso, através do, nem sempre agradável, Henrique Raposo, uma citação do Vargas Llosa que dizia qualquer coisa como: 2a liberdade tem custos; viver em liberdade implica a possibilidade de sermos assaltados".
A frase do Llosa ensaia um princípio de resposta à dicotomia apresentada pelo Chul Han. Claro que a pergunta seguinte tem consequências mais graves que qualquer assalto – se bem que é diferente sermos assaltados em Freixo de Espada à Cinta ou Juarez.
Passaram-se umas semanas depois do artigo do Chul Han e já não nos restam grandes dúvidas sobre o uso que nós queremos que eles façam do nosso smartphone. Dizem que é voluntário – o problema é precisamente esse.
Lembro-me também, ainda a propósito da liberdade, nos finais dos anos 90, no dia em que percebi que não tínhamos tempo no terceiro período para ´aprender` o 25 de Abril nas aulas de história. Lembro-me da indignação com que o expus aos meus pais, mas rapidamente compreendi, com o necessário realismo, que apesar de terem-se passado mais de 20 anos ainda era mais fácil para todos deixar a coisa meio nublosa. Lembro-me que aquilo se passou na beira-alta e lembro que o dia seguinte à Grândola Vila Morena não foi Lisboa no país inteiro. Tantos cristãos-novos se graduaram apressadamente e tantos outros se deixaram estar, na nuvem.
Hoje continua meio nublosa esta coisa do 25 de Abril e das liberdades. Apesar de termos todos suplicado por esta espécie de férias / licenças-sem-vencimento, não conseguimos encontrar a devida disponibilidade para dar o melhor uso às maravilhas das (ainda) novas tecnologias, no tempo do (ainda) novo vírus.
Que dádiva esta da novidade! ou como dizia aquele me persegue, que “maravilhoso testemunho da fraqueza do nosso juízo que ele dê preço às coisas pela raridade ou pela novidade”.
Até esta coisa nova, de uma peste nova, tem um histórico de pestes onde se agarrar.

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