24.04.2020 Interessa-me particularmente a peste


I
Ontem saí. Hoje saí. A cidade já parece outra. Os lojistas já estão dentro dos espaços a limpar, a organizar. Os cafés também. As pessoas circulam. Uns usam máscaras, outros não. Eu tenho a máscara num saco. Às vezes uso, outras vezes não. Ninguém sabe se aquilo é mesmo preciso. Não uso por segurança. Uso por respeito. Já usaste máscara? É o calor, é a respiração. Quando me obrigarem a usar máscara vou usar, mas já não vou dizer que uso. Tem a ver com honra. Uso por respeito pelo outro. Se o outro se sente melhor comigo mascarado, assim o faço.
II
Estamos quase a voltar à vida. Vamos abrir! Dizem os lojistas com quem falo. Vamos abrir pela economia, não pela peste. Fechámos pela economia, não pela peste. Na realidade fechamos pelo medo. O medo foi mais forte que a peste e que a economia. Quem diria? O Medo. É sempre o medo que fecha e abre a economia. A confiança. Ou confias ou não confias.
III
E tu? Confias num sistema que vive da confiança? Eu confio que o capitalismo vive das crises. É economia básica. É endémico. O sistema económico que elegemos para nos salvar (do medo) não só continua a permitir a fome em África, como a fome no Ocidente. Não é bom para nenhum dos lados. Sabias? Mas depois há aquela coisa da esperança versus estabilidade. Assim, ao menos, quem nasceu na merda pode sonhar um dia sair dela. Num sistema estável, se nasceste na merda, imagina onde ficas. No capitalismo também, mas há a esperança. E a esperança versus medo dá o que? Estabilidade?
III
Vou pelo passeio. Avisto um ser-humano: salto para o meio da rua. A fuga higiénica misturada com simpatia – são todos mais velhos que eu os que andam na rua, cabe-me a simpatia. Se vem um carro, a dúvida de segurança? O carro que se desvie? O velho que se desvie? Não vem de máscara o velho, nem o carro. Os carros têm máscaras penduradas no retrovisor. Dantes eram terços, agora são máscaras. O meu pai diz-me que põe a máscara no porta-luvas. Tenho de lhe dizer que não pode ser. E eu seu lá se pode ser. Outro-dia relatou-me a cerimónia com que entrou em casa. O processo bem estudado e bem cumprido, quase-perfeito, mas falhou. Não mudou o saco do pão. A minha mãe não sai há 40 dias. É professora, parece o Matrix, fundiu-se com o computador. Disse-lhe para sair, para esticar as pernas. Até agora mandavas-me ficar em casa, agora mandas-me sair? (eu não mando nada, ainda mandam eles em mim). Disse-lhe que, como no Keynes, quando as circunstâncias mudam, eu mudo de opinião, não é? Não sei, não faço ideia.
IV
A Sílvia ainda desinfecta todos os produtos que compramos. Ela não faz ideia se aquilo serve para alguma coisa. Ninguém sabe. Andamos felizes da vida. Aguentámos este mês atirando os compromissos financeiros para à frente como uns bons capitalistas. Havemos de pagar. Eu tenho fé num perdão. Da dívida. De resto tenho pouca fé em geral. Se abrirem o espaço aéreo em Janeiro que vem, só vamos começar a conseguir pagar a renda em? Mas andamos felizes da vida. Há dias que saímos e compramos peixe fresco, e pão, e vinho, e chocolate. Ontem comprámos dois bolos para o lanche. Que sorte. Temos tanta sorte. Há vidas de merda. É o capitalismo. Para a sorte de uns, igual dose de merda para os outros. Aceitamos todos alegremente, não é?
V
O rendimento básico incondicional não saiu da pré-época. Só na América. Eles imprimem muito dinheiro. Aqui imprimimos menos. Eles dão, aqui empresta-se. Agora andam com os eurobonds, finalmente! O que é isso? Sei lá. Eu não percebo nada de economia. Mas eles também não percebem nada de humanismo. Emprestam dinheiro porque dizem que se derem, ai a inflação! A peta grande do capitalismo depois tem petas mais pequenas que parecem óbvias. O que é uma peta? Uma mentira, tal como terem fechado o mundo por causa da peste. A sério, teorias da conspiração?
VI
Parece que na Europa, cinquenta-por-cento dos mortos estavam em lares. Diz que aqui a percentagem é mais baixa. Há muitos lares ilegais. É preciso proteger os velhos. Quando é que se é velho? Vamos ter que ter cuidado com esta coisa da velhice. Acho que vão ordenar que a vida vai acabar aos 57 ou aos 75. Tudo para casa em frente ao ecrã! A vida tem de continuar cá fora. A alternativa à quarentena universal é a quarentena parcial e selectiva. É a lei do mais-forte, é a mão invisível? Ainda acreditas nisso? Na ciência? Na humanidade já vi que não. O caixão normal é de madeira e tem flores lá dentro. E Velhos. Mortos. O novo caixão pré-morte vai ser de plástico transparente e tens ecrãs lá dentro. E velhos. Vivos. É um limbo. Chegas a uma idade em que ainda não morreste, mas já não te deixam participar. Por medo. De ti.
VII
Os muito ricos continuam a crescer nesta crise. A sério, tinhas dúvidas? Diz que só nos EUA cresceram 10% à tua custa. Agora compras tudo online? Tudo. E depois vêm aqueles imigrantes nas motas entregar-te a casa, não é? Sim, são muito simpáticos. E pobres. Tu pareces um aristocrata, tens um séquito de aias à tua volta que te fazem chegar coisas. Tu clicas. E pago! Claro que pagas, mas sabes a quem?

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