09.05.2020 Interessa-me particularmente algum activismo
I
Carta Aberta a
um Partido Político que, se existir, me responderá. Interessa-me particularmente
algum activismo. Permitam-me que (in)formalize esta conversa de forma
fragmentada e desordenada como me habituei a comunicar. Comecemos pelo meio, contudo,
como em bom-início, comecemos pelas boas notícias. Numa média construída de
forma empírica, cinquenta por cento da população portuguesa ou não vota, ou vota
de forma completamente inconsciente e arbitraria. O nosso ambiente político dos
últimos quarenta e cinco anos, para não mais recuar, fez-nos o favor de nos
legar um grupo heterogéneo (do qual eu tenho feito parte) como audiência desacreditada
nas nobres artes da política. Não têm sido esta também a grande arma do “lado-negro”?
II
Chomsky apelava novamente
esta semana, no seu lento silêncio que a sabedoria do tempo lhe herdou, a
adesão a um tal de Internacional Progressismo enquanto forma de acção
para estes tempos. Estamos em Maio de 2020 e aguardamos pacientemente pela
chegada deste generoso guarda-chuva, satisfatoriamente largo para nos acolher a
todos. Aprende-se com o outro-lado: usar a união das diferenças.
Espera-se do
movimento, que seja capaz de unir as diferenças num mínimo denominador comum de
conceitos que, hoje, partilho: democracia, liberdade, esquerda, verde,
independência, equilíbrio, justiça, ao qual urge, a meu ver, adicionar:
individuo.
III
Esta peste trouxe-me
o tempo da reflexão e a oportunidade de praticar alguma evangelização progressista.
Encontra-se muita resistência laxista, principalmente entre aqueles que temos a
certeza que conseguimos, com algum trabalho, desviar para a causa do bem-comum.
Pedir cliques, partilhas, adesões e assinaturas digitas é hoje activismo
elementar. Mas não nos iludamos, não será esse o nosso caminho. Se partilharmos
as mesmas armas com o inimigo, mais hábil no manejo da imoralidade, dá-se a
confirmação da intuição inicial: perderemos. Mas também não é de ganhar que isto
se trata.
IV
A fé, nos meus
lados da história, é mais imanente que transcendente. Tenho fé no Rendimento
Básico Incondicional. Considero-o, hoje, o grande catalisador de toda a mudança
que desejamos. O RBI pela sua transversalidade, coloca o individuo no centro e
fala-nos de alguma justiça social, algum equilíbrio, alguma igualdade, algum
combate à pobreza, algumas soluções para o imediato – para além de uma genial
simplificação burocrática.
Isto é o cenário
de um RBI para hoje, peste e pós-peste. A minha fé no RBI não é para hoje, é Utopia.
Utopia-real como gostamos de dizer. É o gatilho de um complexo sistema de
questões que começam no histórico trabalho e acabam na prosaica felicidade. O RBI
enquanto início da Utopia-real.
V
Se me interessa
particularmente algum activismo, não me sobra grande fascínio pelo corporativismo.
Aos 36 anos já me resta pouca disponibilidade para principiar no carreirismo
partidário. Há que saltar etapas e encontrar um espaço de performance
horizontal, voluntária, inter-dependente, mas individualista. Porque hoje, cada
um de nós, sozinho, é o seu partido-político. Lipovetsky descreveu-nos desde
1983 e ainda hoje assim o somos. Convocar para a causa comum é trabalhar o
guarda-chuva enquanto receptor de células individuais, tentando, a toda a hora,
esbater o espectro hierárquico tão necessário à mais elementar estrutura
organizativa. O Estado e o Partido Político são hoje, em tempo de peste,
estruturas cada vez mais suplicadas. Talvez um dia deixem de o ser. E é para lá
chegar que nos movemos.
VI
Todos temos
contradições e telhados de vidro. Todos seremos, irremediavelmente, apanhados
na infracção. A virtude é a procura da virtude, e não a virtude per-si. Convocando
Séneca “quando recrimino os vícios, em primeiro lugar, estou a reprovar os
meus próprios. Assim que me for possível, viverei como se deve.”
Da minha parte,
serei apanhado a negar, de quando-em-quando, qualquer tipo de autoridade; questionarei
e duvidarei de tudo, e de mim próprio; lamentar-me-ei, desacreditado pela
condição-humana; praticarei a subversão e a desobediência silenciosa; afastar-me-ei
à primeira contrariedade para reflectir; aplaudirei o adversário sempre que o
entender; cultivarei, em toda a parte, a minha liberdade de opinião e de acção,
principalmente a poética, mas também a panfletária e sobretudo, a irónica.
Por sorte (e
virtude), o meu temperamento é contrário à rebelião, priorizando o recolhimento
nos momentos de fraqueza.
Mas o vosso
partido e eu, partilhamos também um erro básico aprendido na célebre máxima de
Baudelaire, “há uma certa glória em ser-se incompreendido”. Saber
que se está do lado certo, de forma minoritária contra o-outro dá-nos uma soberba
intelectual contrária às desejáveis obrigações de um movimento de ambição
colectivista. A glória da incompreensão,
da complexidade conceptual, da assunção de um estilo inatingível para legitimar
a autonomia do posto é uma arrogância que temos, desde já, de por à parte.
Comunicar, bem, é preciso.
VII
Como se deve posicionar
um partido político para a pós-peste? Agregador de individualidade.
Para os tempos
pós-peste, um qualquer braço local da uma eventual Internacional
Progressista, precisa de todos convocar, principalmente aqueles cinquenta-por-cento
de portugueses que não desejam ser convocados. Para uns, regressaríamos a
Platão e na ideia da recusa do Poder. Para outros falaríamos em lesta rotação
de cadeiras. Para os restantes articulávamos apenas sobre o serviço-público.
Há tanto para
evocar. Tanto para comunicar. O difícil (e a luta-única) é a comunicação.
Comunicar uma utopia-real: desenhar modelos, cenários, ambientes que ilustrem a
perspectiva utópica num patamar de desejo.
Comunicar que a
utopia-real é, repetindo, realizável; que já começamos ontem, há quase dois mil
e quinhentos anos; que nos perdemos pelo caminho, mas raramente foi culpa
nossa; que recomeçamos hoje, diariamente, e amanhã e depois, mesmo que nos dias
de maior desalento, tenhamos a perfeita certeza de que tal não será possível.
Podemos transformar em pergunta. Será possível? Voltamos a Chomsky: depende de
ti.
VIII
Interessa-me
particularmente participar na discussão para o pós-peste, nas minhas condições
de algum-qualquer equilíbrio de independência/obediência, debaixo de um largo
guarda-chuva. Interessa-me particularmente participar de algum activismo para o
pós-peste, da mais elementar distribuição panfletária à mais complexa escrita
panfletária.
Hoje é dia da
Europa. A Europa parece-nos já curta como raio de intervenção para o precisamos
de fazer, contra quem precisamos de o fazer, a favor de quem o precisamos de
fazer.
Por isso, deixo
uma pergunta:
O que posso
fazer para nos ajudar?


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