21.05.2020 Interessa-me particularmente a crise
I
O que é uma crise no sistema capitalista? Um des-equilíbrio ou um re-equilíbrio? O pobre mantém-se pobre, mas o estado ajuda-o mais. A classe média destrinça-se. Alguns ricos ficam mais ricos. Alguns muito ricos ficam ainda mais ricos. Os mesmo muito ricos, ganham novos epítetos.
II
O dinheiro é elástico. Temos de resolver a elasticidade. Esticar mais, para todas as direções. Qual o critério? Como se estica e para onde? O que é uma crise? Circulação desequilibrada. Um morcego a cagar num pangolim é um motivo, e mais? Qual será o próximo motivo? Quando vão deixar de fazer de contas que precisam de motivos. Deixem-se disso, nós aceitamos os ciclos de crises. É a esperança não é? Nos ciclos de crise “vais tentar encontrar um sentido, qual espertalhote entre as pingas financeiras, contra os incautos e os refilões como eu. Um caminheco matreiro que te permita açambarcar o maior número de migalhas que o sistema, o tal capitalista, te permitir. Vais produzir máscaras enquanto os outros espirram, tirando partido do, indispensável, ciclo negativo. Que desta vez, ao contrário da década passada, não serás tu o burro. Bravo! És tudo o que eles precisam.”
III
Um morcego cagou num pangolim e há uma crise. Doença sabemos que há, conheço casos. Morte também, mas não conheço casos. E há o medo, esse também há, não fui esse caso. E há paranoia, sem dúvida, sinto-a diariamente a cada passo, nos meus passos, sou eu a paranoia. Quanto a crises, tenho dúvidas. O que é uma crise?
IV
Na última crise eu andava um pouco ocupado com a arquitectura e as palavras, e não prestei a devida atenção. Mas tu deves ter prestado, ajudas-me? Foi há cerca de dez anos, a última crise. Dois meses, é isso? O mundo parado dois meses e a economia vai ao charco? É assim, simples de perceber? Ajuda-me lá. Não temos linhas para raciocínios socráticos, estes textos têm de ser curtos, arrepia aí caminho, resume. É complexo? Concede-me essa honra de me explicares a tua pia tolerância para com esta nova crise.
V
Já não tenho paciência para ouvir falar em crises. As palavras são importantes: mudemos esta. A peste está a para acabar ou está em stand by? O modelo sueco falhou ou falhou por agora? Já há mortos no Vietnam? Disseram-me que o Vietnamita do Campo Alegre já reabriu, ainda não fui, prometi ir, estou a ser parte do problema se não for. Parte da crise. Sou parte da crise, sou parte do sistema que quero combater, mas não me importo. Acho que o sistema me tolera e eu tolero-o a ele. Abram-me o espaço aéreo, ocupem-me o tempo e os bolsos. Abram às válvulas do turismo e eu calo-me. Quero ir a Berlim, ainda não fui. A Sílvia quer ir ao Japão, a todo o Japão. Não podemos viajar, comprámos um livro sobre o Japão. Ainda não chegou. Para o mês que vem, continuo sem dinheiro para ir ao Japão e parece-me que também não vou ter dinheiro para comprar outro livro. Para comer tenho dinheiro: o estado deu-me porque eu paguei os meus impostos. Obedeci. Fui recompensado. Um bocadinho. Menos do que queria, mas mais do que os imigrantes ilegais dos barcos recebiam na economia de guerra.
VI
Onde anda o dinheiro que toda a gente jura que já não tem? Nas crises, ninguém tem dinheiro e os que têm preparam as bandejas. Sumiu-se! Quem? O Dinheiro? Não: foi daqui, para ali. É isso uma crise, quando o dinheiro vai daqui para ali, mais rapidamente que o habitualmente. É simples isto das crises, para quê complicarem com bicharada nos mercados chineses. Nós queremos as crises, é saudável para os processos de esperança. E re-inventamo-nos. Tão bom esbardalharmo-nos ao comprido de dez em dez anos. Ou menos. Quem sabe quando caga o próximo morcego.
VII
O que é uma crise? É o que tu tolerares, o que tu consentires. De resto, deixa-te ir, na nuvem. Abram lá o espaço aéreo e deixem entrar os meus visitantes internacionais sem crise para que um dia possa ir com a Sílvia ao Japão. O pós-modernismo japonês na arquitectura é erótico. Não ter dinheiro não excita ninguém. Mas nascem bons ativistas na pobreza, no medo e na paranoia.


Comentários
Postar um comentário