21.05.2020 Interessam-me particularmente compreender
I
Eu não percebo muito de economia, confesso (vá-lá, isto é mais um dos meus textos irónicos, eu até percebo qualquer coisa). São as artes e as letras a minha paixão. Por isso preciso da tua ajuda aqui. Ajudas-me? A compreender? Na última crise eu andava um pouco ocupado com a arquitectura e as palavras, e não prestei a devida atenção. Mas tu deves ter prestado, ajudas-me? Dizem que vamos entrar numa crise pior do que a 1929 e eu queria perceber uma coisa bastante simples: o que é uma crise? É que, agora que a peste está a passar, vejo-te aí, resignado e imóvel, condescendente até, a passar por outra situação tão desagradável e tão próxima da anterior. Não aprendeste nada e já estás a cair de novo na esparrela? Não acredito. Deve haver aí qualquer coisa que me escapou e tu deves saber o quê.
II
Dois meses, é isso? O mundo parado dois meses e a economia vai ao charco? É assim, simples de perceber? Ajuda-me lá. Não temos linhas para raciocínios socráticos, estes textos têm de ser curtos, arrepia aí caminho, resume. É complexo? Concede-me essa honra de me explicares a tua pia tolerância para com esta nova crise. Eu confesso-te que não percebo nada disto, mas quer dizer, o dinheiro não desaparece, não é? Para desaparecer do teu bolso, aparece no de alguém, certo? Isto se, o dinheiro não fosse elástico. Mas como é elástico, até pode aparecer um pouco mais no bolso de alguém, correto? Portanto, explica-me lá, como é que tu alegremente chamas de “crise” a uma operação de, vamos lá: des-equilíbrio financeiro? O que é uma crise? Um curto espaço temporal em que uma pequena minoria enriquece ainda mais do que habitualmente?
III
Mas, ouvia-se uns sussurros: tem de vir aí uma crise. Baixinho, em certos círculos de especialistas da coisa económica, uns murmúrios, ténues, arriscados, vaticinavam ao de leve a necessidade de um re-equilíbrio (deixa lá a mão invisível, a esta altura já se vê a mão). Havia bolsos a ficarem menos cheios. O processo de divisão caminhava no sentido contrário. Era isso não era? E depois, há ironias não é? Um morcego cagou num pangolim na altura certa em que as altas instâncias do sistema (podemos falar em sistema?) se desunhavam para inventar um motivo que justificasse mais um ciclo de implosão do capitalismo. Mas isto sou eu, tu deves saber mais que eu, para aceitares tão bem isto das crises. Sabes?
IV
Porque, sabes, eu não gosto que me enganem. Até nem me importo de viver na mentira, asseguro-te, tem coisas boas até, admito. O que não suporto mesmo é que me aldrabem. Quando me dizem que vem aí uma crise, e é porque sim, porque tem que ser, e por dão três ou quatro meias explicações. Não, isso não gosto. Mas até te digo, que se estivesse no lugar deles também não ia mais longe. Quer dizer, é complexo, não é? Só ias baralhar a cabeça das pessoas e depois há tantas formas de encontrares a verdade por outras vias. Porquê perder tempo, não? Não é a função deles. Nem explicar o sistema, muito menos acabar com ele. A função deles é fazer o melhor que podem, dentro do que há, usando o pouco que lhes resta, ao serviço do maior número possível. Nem sequer é particularmente criticável. Até é louvável, isto de tentar estar ao serviço da democracia. Quer dizer, a culpa é tua, não é deles. É tua, porque tu deves saber mais e não contas a ninguém.
V
Então repara. Tu vives num sistema (vamos chamar-lhe sistema para simplificar?) capitalista (vamos chamar-lhe capitalismo para complicar?) onde ciclicamente arrebentam-te com a esperança e tu risonhamente transferes o teu dinheiro, ou deixas ir, ou permites que to levam - depende do caso, mas vai dar ao mesmo - e ainda defendes (a resignação é em si não mais que consentimento) que é assim? Que sempre foi assim? Que só pode ser assim? Explica-me lá, não te escondas atrás do encolher de ombros, tu tens de saber mais para continuares a ser agente das crises.
VI
Se sabes mais, explica-me. Se não sabes temos aqui uma oportunidade. Vou-te desafiar com uma pergunta simples: como base no que aconteceu há menos de uma década, achas que daqui a um ano, se continuares aí parado, à espera, como é que achas que vais estar?
Já sei qual é a tua resposta, que vais tentar encontrar um sentido, qual espertalhote entre as pingas financeiras, contra os incautos e os refilões como eu. Um caminheco matreiro que te permita açambarcar o maior número de migalhas que o sistema, o tal, capitalista, te permitir. Que vais produzir máscaras enquanto os outros espirram, tirando partido do, indispensável, ciclo negativo. Que desta vez, ao contrário da década passada, não serás tu o burro.
Bravo! És tudo o que eles precisam.


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