08.06.2020 Interessa-me particularmente a peste VI
I
A paranoia afinal ainda continua de braço dado com medo. Meio-meio. Meio país em casa, meio país na rua. Pena é que o meio país que ficou em casa arquivou o dinheiro. Isto está complicado, não está? Já andaste pela baixa do Porto a um Domingo à tarde? É igual à semana, mas com menos lojistas resignados às portas dos espaços-de-espera. O que fazes? Espero. E porque não te reinventas? Porque não quero: o que eu estava a fazer era importante e ainda não o tinha acabado. Gosto assim, um misto de como-estava, com a revindicação de uma utopia-real transformadora que há-de-vir.
II
Não fosse a tele-universidade a nova moda na aquisição de conhecimento, e já tinha procurado saber se há uma versão rendimento básico para o estudo: uma espécie de bolsa de auto-investigação. Investiga-te a ti mesmo, e ainda que nada concluas, cumpriste-te. Tenho de me reinventar, dizem-me. O capitalismo-de-peste assim o exige. E vou fazer o que? Ainda não tinha terminado o que estava a fazer para ter a necessidade visceral da mudança. A mudança ter de vir de dentro, se for forçada e artificial, perde a utilidade idiossincrática.
III
Tenho-me deleitado a acompanhar um debate nas redes sociais de um grupo de betos adultos conservadores, virtualmente indignados (e mesmo ofendidos) com os seus concidadãos que desobedecendo à decência higiénica, foram para a rua manifestar-se pelas causas pós-George Floyd. De notar que estes privilegiados burgueses, até se admitem solidários com a causa. Já com a causa da saída de casa é que não. Logo, de que lado estão?
IV
A máscara é uma paranoia. A manifestação é bem-comportada na sua paranoia. Distanciamento social ou máscaras, o que escolhes? Não podes ter os dois. Nem devias ter de escolher. Abraça, que isto já passou.
Os do parágrafo anterior não se preocuparam com os transportes públicos dos in-privilegiados a caminho da plataforma logística. A peste chegou lá abaixo. Se fossemos ler a realidade como-de-costume, então a peste desapareceu. Os problemas lá-de- baixo não são os de cima (leia-se o problema de classe, não como exclusivo na resposta ao racismo, mas fundamental para o caminho). Os privilegiados já podem sair da toca e distribuir dinheiro virtual sobre os que se reinventaram.
Mas mascarados. Há que mascarar o privilégio.
V
Apetecia-me listar aqui o conjunto de coisas absurdas que aconteceram nos últimos tempos. Uma ideia de lista, sempre incompleta: uma lista para o absurdo; outra para a paranoia. “Aquilo que é contrário à razão, à sensatez, ao bom senso”: a definição não permite a definição. Absurdo, algo que para ser definido, usa termos ainda mais indefinidos: razão, sensatez, bom senso. O que manda o bom-senso? a manifestação ou a reclusão voluntária dos privilegiados indignados? Vale mais a vida da sua tribo que a história-futura da humanidade? Diz que sim, segurança do clã em responsabilidade caseira ou luta humana, ganha o primeiro? Não há vencedores aqui.
VI
E não te re-inventas? A oportunidade e o oportunismo andam de mãos dadas como a paranoia e o medo. São cadeias, uma coisa leva à outra. A oportunidade cria o oportunista ou o oportunista queria uma oportunidade. Cá está ela: uma nova vida mascarada e reclusa. Quando é que sais de casa? Sabes que nada mudou não sabes: o vírus é o mesmo e continuam sem saber nada sobre ele. Ainda o apanhas nos transportes públicos e nos supermercados? Ai não vais? Compras tudo online. A re-invenção do consumo. Ainda não fui ao Vietnamita do campo alegre. Tinha prometido ir. Tenho a carteira em confinamento e o desejo mascarado.
VII
Hoje estou abatido, desanimado e desalentado. “Vou-lhe chamar melancolia. Hoje cheguei a casa com uma enorme melancolia. Mudei a palavra, mudei o estado de espírito. Automaticamente. As palavras são importantes. Tenho medo das palavras. Agora que já estou em casa estou melancólico. O Benjamin era melancólico. O Baudelaire era melancólico. O Rossi era melancólico. Deve ser bom ser melancólico. Eu quero ser melancólico. As palavras são tão importantes.”
Pode ser que quando for para casa, já esteja apenas melancólico e possa finalmente começar a pensar na inevitável reinvenção pós-peste (mas uma reinvenção centrifugada ,com exactamente os mesmos ingredientes pré-preste).


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