12.06.2020 Interessa-me particularmente usar pinças II


I
As estátuas representam homens (não Homens). A Arte representa a Humanidade (a Arte representa-se da Humanidade). Às vezes as estátuas são Arte. Às vezes as estátuas são estátuas. Às vezes as estátuas são homens. Quando as estátuas são Arte – a Arte tem de ser intocável. Quando as estátuas são homens – os homens podem cair. Há que perceber quando é Arte. A região da Arte nada tem a ver com os homens e a sua história. A região da Arte tem a ver com a Humanidade e a História. Não se atira a História à água, aprende-se com, trabalha-se com, evoluiu-se com, a História. As estátuas evocam e simbolizam os homens. As estátuas (mas também a arte) são símbolos. Deitar uma estátua à água é um símbolo. Reescrever a História não é um símbolo, nem um manifesto transformador. A História não deve ser reescrita. Deve ser congelada e começada de novo, a partir de hoje. Escrever nova História à frente da História. É possível escrever nova História sem apagar a História? Sim. Um manifesto: continuar a História com nova História (não reescrevê-la). Segundo manifesto: continuar a História só com a Arte.

II
poesia é a medida de todas as coisas diz o Corberó. Podia dizer Arte, mas disse Poesia - é a mesma coisa. A Humanidade não é medida para as coisas: é a coisa em si. A Humanidade mede-se pela Arte; para a Arte. Somos para a Arte e convém que sejamos Humanos. Por vezes não fomos Humanos para a Arte na História da Humanidade – mas fomos História. Queremos uma nova História, deixemos então a História lá atrás. Não há Verdade (na História), há apenas pontos de vista, perspectivas, quase sempre erradas – quase sempre erradas. A História é sempre vista aos olhos de alguém – nem sempre alguém que vê a Arte. Não há verdade, só perspectiva. Criemos novos formas de ver a História sem a rever.

III
Há estátuas boas para se deitarem à água. Há estátuas boas para habitarem os livros de História e de (História) de Arte. Cada estátua um critério. Há que negar as generalidades. Uma estátua – um caso. Uma História – um caso. Um caso – um manifesto.

IV
“Os franceses têm duas palavras que nós traduzimos com uma única, “cidade”: as palavras ville e cité. Rousseau, no seu “contrato social”, escreveu: “Muitos tomam uma ville por uma cité e um burguês por um cidadão. Não sabem que as casas fazem a ville, mas os cidadãos fazem a cité”. Como traduzir esta frase sem deixar as duas palavras nucleares como estão no original? Tal pergunta equivale a esta: como manter hoje um pensamento urbano que seja intrinsecamente político?
Agora, que se anuncia a difusão do teletrabalho, as cidades só vão servir para a flânerie turística. O capitalismo as inventou, o capitalismo as extingue.” António Guerreiro, hoje no Público (ontem fui eu: perdoem-me a vaidade que demorará a retornar à invisibilidade).

V
É tempo de reclamarmos as cidades para a flânerie local. Quem se desabituou de usar a cidade que encontre agora na região intermédia da quase-pós-peste um novo ambiente comunitário de apropriação do espaço público, dos percursos, dos movimentos. Quantas funções há na cidade? Quantas funções esqueceste para as reduzires ao trabalho-casa?
Quantas funções há na cidade? A flânerie (para Guerreiro depois de Benjamim e Baudelaire), a deriva (para Guy Debord), a deambulação (para Montaigne), a vadiagem (para Agostinho da Silva).

VI
Mas por vezes as estátuas não são Arte, são só estátuas, símbolos de homens que podemos deitar à água – não sem antes convocarmos os que estudam a Arte e as estátuas, a Humanidade e a História. Um manifesto é um manifesto. Um manifesto não pode reescrever a história – pode cumprir-se apenas como manifesto. 



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