21.06.2020 Interessa-me particularmente a paranoia III
I
Quer deixar as
suas primeiras impressões? (O que achou do livro?) A água está boa? Fria? Está boa,
mas está vento: os entrevistados na praia nunca acham a água fria. Se escolheram
a praia, não podem ter escolhido mal: sim, está boa a água, está boa a minha
escolha (o primeiro que admita ter escolhido mal o dia de praia que atire a
areia). Esta semana dois jantares: acabou a peste? Meia-peste ou a-meio-da-peste:
a possibilidade de jantar fora. A generosidade do senhor do restaurante que não se desmascara para nos servir. A servidão é mascarada. Eu até servia de
máscara, mas falta-me a quem servir. Os novos servidores estão ainda mais
mascarados atrás dos ecrãs, desmontados pelas cablagens e pelos satélites. Uma
máscara à espera. Amanhã volto a mascarar-me para o serviço de me servir.
Há que reivindicar novos serviços: voltar a serviços antigos / em espera.
II
Outro dia, ao
almoço (na televisão), uma grande cadeia de hotéis no Algarve mostrava o seu
protocolo: agora limpamos em forma de ferradura, dizem. Ferradura? Como é que
limpavas antes? Eras um medieval, já se estava a ver. Resta-nos rir da
paranoia. Já lhe perdemos o exercício do controlo quando deixámos convocar os
estados e as emergências. Uma paranoia inerte. Uma morte em Portugal hoje (ou
duas) ou trezentas-e-tal? Porque não falam das trezentas-e-tal? O Peter
Sloterdijk fala disso. Hoje disseram-me que os exames das faculdades, se fossem
feitos em papel, tinham de ir para quarentena. O que achas que acontece ao
pacote de bolachas que pegaste no supermercado por engano?
III
O que achou do
livro, as suas primeiras impressões? Um jornalista por cada leitor, em espera
que acabe. Quando se acaba um livro, um jornalista apressa-se a saltar detrás
do sofá para recolher umas palavras. Estava frio este livro, mas vá-lá que esteve
pouco ventoso o dia. Que sorte - não há pior que palavras e vendavais. Quais as suas
primeiras impressões depois de ler o Matteo Perdeu o Emprego? Não sentir e não pensar,
escrever, não reler e publicar ou cada dia que passa será mais difícil.
IV
Coisas bonitas
que o Tavares disse ontem (no dia em que não publiquei isto) ou uma selecção-do-dia:
“O pudor chegou à boca: nem sequer quero ver o teu oxigénio”, “O
espanto pela morte de alguém cinco minutos depois não causa espanto nenhum”,
“Uma arte de ferir à distância, a esgrima” - e foi isto, três frases.
Coisas bonitas que o Tavares disse noutros dias: “Aguardo Deus com gula”,
“Difícil entender tragédia sem sangue”, “A geração dos humanos com os
olhos estupefactos. Uma nova geração dos humanos. Os humanos espantados” “É
preciso infiltrar nas fissuras a alegria” - compilar ou ainda, a copiar, a
ver se entra por osmose. Está boa hoje a água: quente e ventosa, como um bom livro.
V
A incerteza é
a maior das desculpas: desta peste não sabemos nada: logo, estamos autorizados
a errar. A desculpa-oficial: a peste. Não há certezas! Como se alguma vez
tivesse havido. O Marco Aurélio não tinha certezas nos campos de batalha em
170, logo escrevia. O exercício da política enquanto proposta
anti-verdade. Dos três, salvou-se o
Epicuro que tinha um jardim. Descobri agora que um tal de Isaiah Berlin era
avesso à escrita, embora gravasse e transcrevesse as suas conversas. É um
método. Há métodos piores, por exemplo: usar a peste como desculpa para tudo.
Não sabemos nada!
VI
Domingo, dois
dias depois da crónica do António Guerreiro: um novo marco para contar os dias
da paranoia: “A grande tese de Leopold Kohr, que precisa hoje de ser
lembrada porque ganhou enorme pertinência, sobretudo no campo económico, é a de
que tudo o que é demasiado grande está errado e só causa problemas.” Nota: 1-
fazer uma lista de tipos baixos que escrevem (como o António Guerrero); Nota 2 -
fazer uma lista de escritores baixos; Nota 3 – tentar fazer parte da nota 1 e retirar
a equação da altura da nota 2, para fazer uma nota apenas com o Gonçalo M. Tavares.
VII
Está boa hoje
a água? Primeiras impressões? A importância do imediatismo. Reacções quentes e
ventosas. Lembro-me quando, em criança, saía do cinema com os meus pais e perguntava:
qual foi a parte (do filme) que gostaste mais? Pior que a impressão instantânea,
a selecção parcial (instantânea). De que parte do livro gostaste mais? Do
depois de ler. A Sílvia tem agora um jardim comestível na varanda, como o Epicuro. Eu nem o rego. Regar um jardim é uma frente-de-batalha como a do Marco Aurélio. Eu prefiro escrever na tenda.


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