01.07.2021 Interessa-me particularmente a fronteira
I
O Cinema continua vazio. Não eramos mais do que dez às dez de uma quarta-feira à noite. The Man Who Sold Is Skin (2020) é um filme inquietante da tunisina Kaouther Bem Hania, que nos fala das liberdades e das fronteiras, através de uma imagem particularmente interessante: a mercadoria feita obra de arte (também válido para o comércio descartável) circula livremente e o ser humano não.
II
Mas o país da Ilha dos Museus, um dos mais evoluídos e respeitados deste nosso ocidente, não acredita nos nossos testes e nas nossas vacinas, por acaso, as mesmas que eles usam. Nem eles, nem afinal nós. O nosso Primeiro, homem adulto e vacinado está em quarentena porque privou, mascarado e higienizado, com um ferido da peste.
"Isto tem de ser explicado, para que não haja a ideia errada
de que a vacina não serve para nada”. Palavras sábias do
Presidente que depois de se dedicar de alma e fé ao futebol, se vira agora para
as incongruências da paranoia. A DGS já assumiu sem assumir que se esqueceu de
rever o protocolo. Afinal, até acreditamos na pica – foi mesmo incompetência.
Ufa!
III
The Man Who Sold Is Skin é levemente inspirado na obra de Wim Delvoye, que no filme acaba por interpretar o representante da Seguradora. Há lugares-comum que não podem falhar num filme-crítica da arte contemporânea apenas para nos lembrarmos que “pior do que fazer parte do sistema é ser ignorado pelo sistema”. De uma forma ou de outra, estamos sempre a perder – talvez apenas a seguradora ganhe sempre, ou quem sabe não se encontre, criativamente, uma forma de ganhar à seguradora!
IV
Amanhã vou à pica. Se não servir para mais nada, dada a sua reconhecida excentricidade de efeitos-secundários, que variam de acordo com o feitio de cada um, pelo menos já tenho uma desculpa-oficial para sentir desânimo, desencanto e desalento, baixa auto-estima, pouca energia e falta de entusiasmo, melancolia, tédio e spleen – pelo menos durante quinze dias: e quando se acabar o prazo de validade da desculpa?
V
A New Yorker anda a abusar dos cartoons que demostram a falta de vontade para a convivência social pós-pandémica (média-pandémica talvez seja mais assertivo). Hoje o MEC reforçou o tema.
Como não costumo ir em modas, é desta que vou tornou num
animal social! Está prometido.
VI
“Caro Manuel, bem sei que deveria encontrar outras referências, mais em conta com o meu chame discreto, mas a bem da verdade, ou melhor, a bem da memória, acho que prefiro mudar de temperamento do que o ídolo. Vamos a isso?"
O verão: eis uma fronteira transponível para o ano dramático.
VII
“Ah, nasceste no lado bom do mundo!” diz o Sírio ao Belga; diz a mercadoria ao seu autor.
No
lado mau do mundo não são precisas desculpas e gatilhos motivacionais.




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